quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? (1 Co 5:6)








Havia em uma cidade duas congregações evangélicas; uma era bem pequena, com poucos membros. O templo, limitado em espaço, e bem simples em suas instalações. A outra ficava bem ao lado desta primeira, só que era gigantesca e suntuosa, com fachada de mármore e instalações confortáveis de ultima geração, ar condicionado, conforto total. Estavam instaladas na mesma rua. Um terreno vazio servia como uma espécie de fronteira e, fazia uma clara divisão.

Na igreja pequena, os membros eram pessoas simples e humildes. Criam plenamente em Deus, buscavam incansavelmente a Sua presença. Se consagravam constantemente na Palavra da Verdade, cultuavam, oravam sem cessar e proclamavam o evangelho da salvação a todos daquela localidade. A palavra que era pregada no púlpito era sempre o que o povo precisava ouvir, para que se aperfeiçoasse e crescesse na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

Dia após dia, culto após culto, aqueles, homens e mulheres celebravam, aprendiam, intercediam e proclamavam o Deus que salvou suas vidas, pregavam o Deus que sofreu e morreu na cruz do calvário como maldito no seu e no meu lugar, apesar de ser santo e não ter nenhuma culpa ou pecado que justificassem a sua condenação e morte. Alegravam-se em sofrer por amor ao Senhor Jesus, reconhecendo a obra maravilhosa que Ele consumou. Literalmente tomavam cada um, a sua cruz.

Na igreja suntuosa e gigantesca as luzes brilhavam, o som era estridente, podiam-se ouvir os louvores cantados, pelas mais famosas bandas gospel da atualidade, a centenas de metros de distância e o brilho e o piscar das suas luzes ofuscavam tudo ao redor. Centenas de centenas de pessoas adentravam a nave do templo, com uma capacidade espantosa. Muito louvor, muita palavra profética, muitas curas inexplicáveis e sobrenaturais, muito exorcismo, muitos e muitos testemunhos de vitórias e mais vitórias de seus membros afortunados. Pregação da palavra resumida a exaltação dos crentes, de que eles são filhos de Deus, filhos do dono, são cabeça e não cauda, que Deus é o dono da prata e do ouro e que pobreza é sinônimo de pecado e falta de fidelidade com Deus. Muitas ofertas nas dezenas de gazofilácios espalhados pela igreja, fora a adesão a pacotes de TV a cabo, planos de saúde, consórcios, aposentadoria, “nações dos...” e coisas mais deste tipo, sempre visando à bênção, a troca de favores. "O crente abençoa a igreja com suas ofertas para que Deus o abençoe dez vezes mais". “Creia você é filho do Rei”, ministrava a oração para a oferta o diretor do culto.

Em uma determinada noite, ambas as igrejas estavam abertas e haviam convidado seus fiéis a adorar ao Senhor em um culto de ação de graças. Mesmo com o barulho ensurdecedor da igreja suntuosa, os membros daquela igreja pequenina cultuavam também ao Deus todo poderoso. Haviam orado no inicio, cantado alguns hinos espirituais, a palavra foi pregada, e mesmo com o alto volume da outra igreja, todos eles compreenderam a mensagem e agora seria o momento da interseção pelas vidas do bairro, pelos que estavam perdidos nas trevas e na escuridão, para que Deus, através do Seu Espírito Santo tocasse no coração dessas almas e mostrasse o caminho da salvação, a mensagem do evangelho verdadeiro de Jesus Cristo, que é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Rm 1:16).

Ao encerrarem a oração, o pastor e suas ovelhas, que estavam ajoelhados e com rosto em terra, ao levantarem-se tiveram uma grande surpresa; a igreja estava cheia de gente, toda a rua estava tomada, as pessoas choravam sem parar e repetiam a pergunta que o povo fez ao apóstolo Pedro no Dia e Pentecostes: “Que faremos, irmãos?” (At 2:37b). O pastor da pequena igreja não entendia o que estava acontecendo, até que uma pessoa lhe disse:

"Estávamos adorando a Deus naquele suntuoso templo, a musica a todo volume, as luzes brilhavam mais que estrelas no céu, o ar condicionado no máximo até que houve uma sobrecarga que desligou toda a região, ficamos sem energia elétrica, acabou a luz. O templo é equipado com luzes de emergência, mas não era o bastante para enxergar as palavras na bíblia. Como o templo é muito grande e todo preparado para não reverberar ninguém conseguia escutar o pastor pregando. Não se podia tocar, pois não tinha energia para as mesas, e os amplificadores, e instrumentos musicais, e microfones sem fio. Mas o pior de tudo, o ar condicionado também parou, e o calor lá dentro estava insuportável, tivemos, todos de sair aqui para fora na total escuridão, foi quando alguém olhou para essa direção, atraído pela luz que emanava dessa pequena igreja. Não conseguíamos compreender, havia faltado luz em todos os lugares, mais aqui, uma chama brilhava suavemente. Ouvimos, então, as orações que eram feitas aqui, para que Deus abrisse os olhos daqueles que estavam sendo enganados por satanás, e pensavam que estavam na luz, mas viviam condenados em trevas eternas, e certamente pereceriam se Deus não os ajudasse. E nós ouvimos o seu choro, e quando olhamos para nós mesmos, Deus nos fez enxergar que intercediam por todos nós. Viemos atraídos pelo brilho que emanava daqui, mesmo sem energia elétrica, Deus no indicou o caminho da libertação e da salvação."

Este texto é uma fábula, e pode ser tratada até como uma ilustração, que me veio a mente enquanto meditava sobre a passagem em que Jesus diz a seus discípulos que “tomassem cuidado com o fermento dos fariseus e de Herodes” (Mc 8:15).

Sabemos que Deus é “onipresente” e está em todos os lugares ao mesmo tempo, e que Ele está, tanto na pequena congregação como na suntuosa, e menos ainda, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles. (Mt 18:20). Tanto nessa pequenina como na suntuosa se prega a Palavra de Deus, a mesma Bíblia é lida e estudada. É certo que uns pregam o que o povo precisa ouvir, para que haja mudança e edificação, e que outros infelizmente, uma, atual, grande maioria, pregam o que o povo quer ouvir. Este modelo, que o povo quer ouvir, não transforma, não edifica, não leva o homem a salvação, pois está cheio de fermento.

A igreja suntuosa da estória tinha tudo o que era de melhor, capacidade e conforto para milhares de pessoas juntas, as pessoas eram atraídas por tudo isso e no momento em que a energia elétrica paralisou toda a tecnologia eles perderam a razão de estar ali, naquele lugar, pois a motivação da grande maioria não era o Senhor da Igreja, mas o entretenimento que ela poderia proporcionar. Extinto este, se finda o propósito de cultuar.

É claro e muito improvável que existam igrejas como as descritas no texto [?]. Claro que as duas fazem parte de extremos. Dificilmente encontramos uma igreja tão completa como a pequena, sempre haverão lacunas e serem preenchidas. Mas podemos aprender que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas (At 17:24b), muito pelo contrário, Ele habita no coração dos homens Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (1 Co 3:16). A pequena é perfeita demais e a grande tem excesso de atrativos. Mas o que quero destacar e comparar é a igreja pequena e a grande com uma “massa” de pão. Com os mesmos ingredientes, com os mesmos nutrientes necessários ao sustento do ser humano para fazê-lo crescer e se fortalecer. Qual então seria a grande diferença entre as duas “massas”, pois o resultado era bem diferente entre as duas igrejas? A diferença estava no fermento usado pela igreja grande.

O que buscamos então? Que Deus habite em nós e possamos ser sal e luz para esse mundo? Ou estamos atrás da massa levedada, cheia de fermento, bonita, adornada, cheia de atrações e delicias, e o principal, a ação do Espírito Santo, que opera a verdadeira transformação na nossa vida fica sendo deixada do lado de fora, ou, mesmo dentro, é ofuscada pelas inúmeras “atrações” apresentadas nesses modernos púlpitos?

O que você busca? Jesus Cristo? Então pense nisso, medite, e tome cuidado com o fermento dos fariseus e de Herodes.


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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Pastor negocia a rendição de traficantes no Complexo do Alemão:


Na véspera da invasão da polícia ao Complexo do Alemão, um grupo de cinco pessoas da ONG AfroReggae decidiu subir o conjunto de 14 favelas na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, e tentar convencer os traficantes a se entregarem. Liderados pelo diretor-executivo da organização, José Junior, eles argumentaram que a polícia venceria um possível confronto e que inocentes seriam as maiores vítimas. Ao lado de Junior estava um dos coordenadores da área social da entidade, Rogério Menezes, respeitado por traficantes, viciados e detentos do sistema penitenciário do Estado.
                                  
Evangelizador da Assembleia de Deus, Rogério é chamado de pastor. Em meio à negociação com os criminosos, no sábado (27), José Junior recorria ao Twitter para mandar informações em tempo real. “Pastor Rogério é o cara que mais salvou vidas que eu conheço. Muitas, inclusive, na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. Homem de Deus”, escreveu o líder do AfroReggae na ocasião.

Ex-viciado, pastor Rogério admite que já traficou drogas, pegou em armas e cometeu crimes. Foi preso. Sobreviveu a duas overdoses de cocaína, e “foi salvo por Jesus”. Hoje, ele diz que sua vida pregressa o permite compreender o que passa pela cabeça de criminosos e apresentar argumentos para tirar muitos da marginalidade. “Já salvei uns 300 que estavam amarrados para morrer”, garante.

Sobre a ação de retomada do Complexo do Alemão pelo Estado, o pastor diz acreditar “que a intenção foi uma das melhores”. Segundo ele, “o governador tem feito um trabalho muito bom”. Contudo, o religioso defende que somente uma anistia aos traficantes será capaz de pôr fim à ameaça de guerra no Rio. “Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares e pela Justiça.”

A seguir, leia mais sobre o que pensa o pastor.

iG: Às vésperas da polícia invadir a favela, no sábado (27), o senhor e o José Junior entraram no Complexo do Alemão para conversar com os traficantes. Na sua avaliação, esse gesto ajudou a evitar derramamento de sangue?

Rogério Menezes – Sim. Eu e o José Junior estávamos todo o tempo juntos. Ele virava para mim e falava “pô, Rogério, o que a gente pode fazer para ajudar?”. Eu respondia: “Junior, eu sei que é perigoso e arriscado, mas imagina se a polícia entrar? Vai morrer muita gente. Temos de ir lá”. Expliquei que o máximo que poderia acontecer era a gente ser tomado como refém. Falei: “Deus está nos mandando ir”.

iG: O que o senhor pensava naquele momento?

Rogério Menezes – Havia ali cerca de 1.500 pessoas com algum envolvimento com o crime. Se houvesse confronto, eles iriam enfrentar, como foi noticiado, 2.600 policiais civis, militares, homens do Exército e da Marinha. Sem contar os inocentes, os jornalistas, imagina o derramamento de sangue que poderia existir… Eu só pensava nisso.

iG: Como vocês chegaram até os traficantes?

Rogério Menezes – Entramos na favela e perguntamos onde eles estavam. Nos orientaram a chegar até a parte mais alta. Encontramos um grupo de cerca de 60 homens, os mais perigosos. Conversamos olho no olho.

iG: E como foi a conversa?

Rogério Menezes – Eles vieram até a gente. Estavam cansados, sem forças até para falar. Nós argumentamos que não dava para eles encararem. E muitos diziam “pastor, me ajuda. Pelo amor de Deus. O que o senhor pode fazer por mim?” O José Junior respondeu que não havia nada que a gente pudesse fazer e que o melhor seria se renderem à polícia; que a única garantia que a gente podia dar era a de que ninguém seria assassinado se aceitasse a rendição.

iG: E eles estavam inclinados a aceitar a proposta?

Rogério Menezes – Um dos chefões virou para mim e falou: “Pastor, o senhor me conhece. Sabe que a minha vida todinha eu tirei dentro da cadeia. O senhor quer que eu volte?” Respondi: “Rapaz, é melhor você se entregar do que ser morto. Você tem uma vida, tem família. Pensa muito bem no que você vai fazer.”

iG: E qual foi a reação?

Rogério Menezes – Eles estavam desesperados, amedrontados. Alguns tremiam, estavam com os olhos arregalados. Outros olhavam para a gente como se fôssemos uma saída, um porto seguro. E a gente foi tentando acalmá-los. Mas eles diziam que era complicado se entregar. Em determinadas facções, se entregar é complicado. Eu sei disso. Hoje sou pastor, mas já fui do crime. Entendo a posição deles. Mas é aquele negócio, para o homem é impossível, mas para Deus tudo é possível.

iG: Quer dizer que alguns queriam se render, mas tinham medo de ser assassinados na cadeia por retaliação da facção criminosa a que pertencem?

Rogério Menezes – É por aí. Cada caso é um caso. Depois dessa conversa que tivemos com eles, 37 se entregaram. Um se apresentou na delegacia com a mãe, a imprensa acompanhou. É o Mister M. Teve um pai que foi entregar o filho por acreditar que isso era melhor do que vê-lo morto pelo Bope. Acredito que eles não viam saída. Eu e o José Junior os motivamos a não irem para o confronto. Ninguém imaginava que o Alemão poderia ser ocupado da forma como foi. O maior mérito foi de Deus. Mas há também o mérito do AfroReggae, do José Junior, que foi muito corajoso.

iG: Qual foi o diálogo com os traficantes que mais marcou o senhor?

Rogério Menezes – Vi homens de alta periculosidade me chamar no canto e se abrir para mim e para o José Junior. Um deles chorou na nossa frente. Não de medo. Chorou porque não queria o confronto, porque temia pela vida dele, porque tinha família. Ele estava se sentindo traído por amigos que o deixaram na mão. Foi o momento que mais me compadeceu. Eu ficaria o tempo todo ao lado daquela pessoa, ainda que a polícia entrasse.

iG: Era um dos chefes do tráfico?

Rogério Menezes – Positivo.

iG: Quem falou mais, os senhores ou os traficantes?

Rogério Menezes – Eles ficaram mais tempo calados. Queriam ouvir a gente, queriam uma luz. Eles não estavam conversando com traficantes, mas com pessoas que simbolizavam a paz, a vida. Tem pessoas ali que me conhecem desde 1993, quando comecei a pregar. Muitos eu vi ir para a cadeia, sair da cadeia, visitei na favela. Havia homens com armas nas mãos, mas os que conversavam com a gente não estavam armados. Em momento algum eles diziam que iriam meter bala ou que optariam pelo confronto. Isso eu não vi.

iG: O senhor diz que muitos traficantes não querem se render porque temem retaliações de colegas de facção dentro da cadeia; outros que já ficaram muito tempo presos e não aceitam voltar. A polícia afirma que vai permanecer na favela até realizar as prisões e recuperar as armas. O senhor defende alguma proposta para que não aconteçam novos conflitos?

Rogério Menezes – Sou a favor da anistia. Converso muito com traficantes e com viciados, visito muita boca de fumo. Eu evangelizo muito. Faço um trabalho de Deus, um trabalho do bem, espiritual. Já tirei muitos dessa vida e encaminhei para um emprego. E já vi caso também de pessoas que largaram o crime, se mudaram para outro estado, mas não conseguiram emprego porque devem à Justiça. Tiveram de voltar e retornar para o crime, tinham família. Mas eles me diziam “pastor, o senhor viu que tentei. Voltei para o tráfico, mas não bebo, não me drogo mais, nem a baile funk eu vou. Vai acabar meu plantão na boca e vou para casa ficar com meus filhos”.

iG: O senhor não acha difícil propor para a sociedade que essas pessoas sejam anistiadas sem pagar pelos crimes que cometeram?

Rogério Menezes – É muito difícil responder sobre isso. Como religioso, acho que o culpado disso tudo são as forças espirituais do mal. Vou dar um testemunho da minha vida. Eu trabalhava, ganhava bem, três salários mínimos. Não era de uma vida errada. Mas em um determinado momento me senti sem chão. Tudo começou quando perdi meu pai. Minha mãe arrumou outro homem logo em seguida e eu não aceitei. Ela então me expulsou de casa. Eu tinha 16 anos. Bateu uma depressão tão grande, que perdi meu emprego, não conseguia trabalhar. Era morador da Baixada Fluminense, morava numa comunidade carente, conhecia bandido, conhecia traficante, mas eu era trabalhador. Nem todo mundo que mora dentro de uma comunidade é bandido. Minha família me deu estudo, o melhor que pôde dar. Mas eu caí na vida do crime, me entreguei à bebida, às drogas, fui preso. Houve momentos em que me vi sentado, chorando, querendo sair dessa. Eu despertei, procurei uma casa de recuperação. Tive apoio.

iG: Apesar da visão religiosa do senhor, a anistia não é uma proposta polêmica?

Rogério Menezes – Cada caso é um caso. Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares, pela Justiça. Caso a caso, insisto. Mas, particularmente, eu acredito que num universo com 100% de criminosos, se você oferecer uma oportunidade pelo menos 40% aceitam largar essa vida. É preciso considerar que muitos temem por suas famílias. Se forem presos, quem vai sustentar suas mulheres, seus filhos? Tem que haver um projeto social também.

iG: Muitos bandidos fugiram e a polícia diz que vai capturá-los. O senhor acredita que esses traficantes vão voltar para o Complexo do Alemão futuramente? Ainda pode haver enfrentamento?

Rogério Menezes – Acredito que muitos homens que estavam ali no meio, inclusive os que fugiram, não têm antecedentes criminais. Às vezes até segura uma arma, mas é só um viciado. A polícia tem feito seu trabalho. E cabe à polícia e ao governo continuarem a fazer o seu trabalho. Contudo, também acredito que aquilo ali foi a mão de Deus a fim de despertar esses jovens. Acredito que muitos vão analisar e ver que não vale a pena se envolver com o crime. É a resposta que posso dar para essa pergunta.

iG: O senhor está certo da recuperação dessas pessoas?

Rogério Menezes – Vou dar um exemplo. Trabalha com a gente lá no AfroReggae o Gaúcho. Durante muitos anos ele foi o chefe do Alemão, era um dos mais temidos na área. Ele tirou 28 anos de cadeia e hoje está aí, fora do crime, trabalhando com carteira assinada. Isso é a prova de que enquanto há vida, há esperança. O Bem-te-vi, aquele que morreu na Rocinha, ele vivia me dizendo que queria sair do crime. Eu ia para lá pregar umas sete da noite e ele não me deixava ir embora antes das três, quatro horas da manhã. Ele tinha o prazer de estar do meu lado. Muitas vezes o vi chorar. Ele me dizia “pastor, me ajuda. Quero sair dessa vida, mas não tenho forças. A sociedade me marginaliza, não acredita em mim”. Eu dizia, “rapaz, o mais importante é Deus estar olhando para você. Deus tem um plano para sua vida. Você não pode se entregar à criminalidade”.

iG: Por que evangélicos são tão respeitados pelos criminosos?

Rogério Menezes – No sábado, na hora em que a polícia se posicionou para invadir o Complexo do Alemão, tinha um pastor na entrada da favela de terno e com a Bíblia na mão. Estava ele e a mulher dele. Aliás, havia mais de um, eram muitos. Eles ficaram entre os militares da polícia, do Exército e da Marinha, e os jovens. E eles procuravam esses jovens e diziam para que saíssem dessa vida. Ofereciam apoio: “quer se entregar comigo?”, perguntavam. No momento mais difícil, havendo risco de vida, eles estavam ali. E tem os testemunhos daqueles que saíram do crime e hoje estão aí, vivendo com dignidade. Isso mostra para eles que é possível.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Jesus, meu herege favorito!


Marcelo Lemos

Jesus me ensinou a ser herege.

(Pausa para efeito...).

Jesus me ensinou a viver nas alturas.

Apesar de nunca ter passado perto da Bola de Neve Church, tenho descoberto que caminhar com Jesus é pura adrenalina; acredite: se você começar a andar nos passos de Jesus, paraglider vai parecer coisa de criança. Devo explicações. Primeiro, a contextualização do meu sentimento. Sim, estou falando de sentimentos; afinal, crente não é “robô”; ou é? Prossigamos: tenho aprendido a me livrar, dia após dia, das amarras do legalismo religioso que herdei, e também, a me esquivar, a cada dez segundos, da sedução utilitarista da(s) Santa(s) Sé(s) Gospel. Não me canso de falar de tais assuntos, pois, imagino, estes desafios são reais para outras pessoas também. Se eu estiver enganado, melhor.

Livrar-se das amarras de uma religiosidade manca, seja ela qual for, não é tarefa das mais fáceis. Nenhum ser humano vive numa ilha. Nossas decisões, e nossas escolhas, afetam e são afetas por amigos, parentes, amores, e desafetos. De modo que, para mim, cada nova liberdade alcançada é como entrar numa Onda Gigante – pura emoção!

Em segundo lugar, e para evitar mal entendido, esclareço que Jesus me ensinou a ser herege, mas no bom sentido da coisa. Não estou me referindo ao abandono da Ortodoxia Cristã, conforme herdamos dos Credos Históricos. Me refiro, (atentem bem!), as diversas caras que damos a Religião Cristã, e nos iludimos pensando que estes rostos, feitos a nossa imagem e semelhança, tenham sido moldados pelo próprio Cristo.

A Boa Nova é que Jesus não é Religião. Nós somos, por natureza, seres religiosos; mas Cristo, o Filho de Deus, não é religião alguma. Não há nada de errado em ser religioso, pois tal instinto nos foi dado por Deus; todavia, como em todas as áreas, o pecado corrompe até nosso desejo pelo Divino, e terminamos por confundir Jesus com nossa religião.

Quando isso acontece, (e é difícil não acontecer), nos tornamos sectários, desumanos, exclusivistas, fechados em nós mesmos, mesquinhos e, inevitavelmente, hipócritas.

Aos pés da Cruz, tenho aprendido que a minha Religião não é a Verdade, mas busca a Verdade, que está em Cristo, e só nele. Assim, tenho plena consciência de que não sou um eleito de Deus por acreditar nos Cinco Pontos do Calvinismo, ou nos fundamentos da Escatologia Preterista. Também não sou parte dos salvos por acreditar na Atualidade dos Dons, crença que herdei do pentecostalismo; nem por ter descoberto a riqueza da liturgia Broad Church.

Minha salvação está em Cristo, pela fé, e pela fé somente. A fé que salva não é a fé na Religião, nem mesmo a fé na fé; mas a fé em Cristo. A Bíblia diz que Cristo veio ao mundo e “padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus” (I Pedro 3.18). Este pecador ouviu, creu, e foi salvo.

Agora, pense na revolução que isso representa. Perante os olhos da religiosidade humana, tais reflexões nos transformam em hereges; pois, via de regra, tendemos a crer que Jesus salva, mas só dentro da nossa religiosidade particular. Charles Spurgeon foi um excelente pregador reformado do Século XVII. Sou um grande admirador de suas pregações, e de sua teologia, calvinista. Mas, apesar de admirá-lo, há uma afirmação dele que considero temerária. Ao defender a Soteriologia Reformada, Spurgeon escreveu: “O Calvinismo é o Evangelho”.

Por mais admiração que eu tenha por este maravilhoso pregador, e por mais que eu concorde com sua Teologia, não posso aceitar tal afirmação. Na minha opinião, penso que ele poderia ter escrito: “O calvinismo é a melhor interpretação do Evangelho”. Os meus irmãos arminianos iriam resmungar, mas, seria uma afirmação bem melhor. Por que? Por um motivo muito simples: o calvinismo não é o Evangelho: ser calvinista não salva ninguém, enquanto que a fé em Jesus salva calvinistas e arminianos. No inferno se poderá encontrar calvinistas, arminianos, batistas, pentecostais, cessacionistas, católicos... Só um grupo de pessoas estará livre da Morte Eterna: “os que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro”.

O problema fica “mais em baixo” quando olhamos para os modismos, e ventos de doutrinas, que nos rodeiam. Os fariseus da nossa geração pretendem nos fazer crer que blasfemamos contra a Lei e os Profetas, quando na verdade estamos simplesmente questionando suas tradições e mandamentos humanos. Lamento se corro risco de ofender gente querida, mas é um fato: tem fariseu por todo lado e, se bobear, até dentro de cada um de nós.

É farisaica toda tentativa de encaixotar a vida cristã, e propor uma espiritualidade homogênea, como se o Espírito fosse chefe de uma linha de produção de biscoitos. Pregador bom precisa fazer barulho; louvor ungido só se for com choradeira; Igreja santa só usa salmodia exclusiva, ou os hinos da Harpa... E por aí vai; caixotes é o que não falta!

O encaixotamento da espiritualidade cristã, entretanto, não é inimigo fácil de combater, ou vencer. É uma praga, um câncer, e tem o poder de se espalhar como uma lepra. Eu vejo Legalismo todos os dias e, quando me assusto, me pego sendo eu mesmo seu promotor. Quão miserável somos; quão inimigos da Graça!

Ah, a Graça! Esta pequena palavra um dia transformou a minha vida. Acreditem amigos, eu não sabia nada sobre Graça, mesmo tendo passado quase toda a minha infância dentro de um templo evangélico. Isso mesmo, pois, para mim, havia sido dito que ser “cheio da graça” era simplesmente o mesmo que possuir vários dons, ou falar “línguas estranhas”, ou então “pregar poderosamente” (i.e., aos berros!), ou ficar desmaiado de “poder” no Monte!

Graça que liberta? Graça que Salva de nossos pecados? Graça que redime, transforma e glorifica? Graça que significa puro e simples “favor imerecido”? Não senhores, desta Graça eu jamais havia ouvido falar.

Quando os Legalistas judaizantes tentaram impor suas humanas tradições sobre o Ministério do Apóstolo Paulo, ele rapidamente identificou tal tentativa como sendo uma armadilha para “espiar a nossa liberdade, a qual temos em Cristo Jesus, e nos porem em servidão” (Galátas 2.4). Resoluto, e certo de sua liberdade na Graça, o apóstolo diz: “Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (v. 5).

Nem durante míseros sessenta minutos somos obrigados a nos sujeitarmos aos ditames dos Fariseus, os de ontem, ou os de hoje. Foi estudando a luta incansável de Paulo contra os judaizantes de seus dias que aprendi o poder subversivo do Evangelho, e com ele aprendi com quais armas devo lutar contra aqueles que “espiam” nossa liberdade.

Estou certo que Paulo herdou sua subversão do próprio Cristo. Havia um “estado atual de coisas” quando o Cristo veio ao mundo, e ele prontamente o combateu, e inaugurou a verdadeira hermenêutica da vida, sob o prisma o Espírito, o prisma da Graça. Ou, alegará alguém, que Cristo tenha se feito cúmplice do “status quo” estabelecido pela religião dos Fariseus? A resposta me parece por demais óbvia e irrefutável, amigos:

“Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição? Porque Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser ao pai ou à mãe: É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim; esse não precisa honrar nem a seu pai nem a sua mãe, e assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus” (Mateus 15.3-6).

A mensagem da Graça é subversiva, pois derruba os alicerces das Tradições Humanas, as quais colocam percalços no Caminho entre Deus e o homem. Por isso, como já vimos na Carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo também se fez subversivo contra as tradições dos cristãos judaizantes. O estudante se lembrará que aqueles homens imaginavam que ter fé em Cristo não era suficiente, sendo necessário ao novo convertido aceitar também as Leis Cerimoniais da Antiga Aliança. É sobre eles que Paulo escreveu: “Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós” (Galátas 2.5).

Também os cristãos primitivos viveram a subversão do Evangelho. Enganam-se aqueles que apresentam um quadro simplista a respeito da cruel perseguição que eles sofreram por parte da maioria dos Imperadores Romanos. Ensina-se, em muitos lugares, que teriam nossos irmãos sido mortos a espada, fogo e por feras, simplesmente por acreditarem em Jesus. Sim, eles morreram por causa de Jesus, mas existe algo que a Igreja de nossos dias deveria se lembrar: os Imperadores odiavam os cristãos pois eles declaravam: “Cristo é o Príncipe dos Reis da Terra” ( Apocalipse 1.5). Esta era a mais grave acusação contra os cristãos primitivos: “Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui; os quais Jasom recolheu; e todos estes procedem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, Jesus” (Atos 17. 6,7).

Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui... Os cristãos de hoje se escondem por trás de uma máscara de piedade e santificação. Dizem nada querer com este mundo, e alegam que tudo o que vemos pertence aos domínios de Satanás. Reclamam de leis anticristãs, mas nada fazem para promover o Reino de Cristo. Os cristãos primitivos eram diferentes. Eram bons cidadãos, e respeitáveis; mas lutavam com todas as forças para promover o Reino de Deus, e conseguiram transformar o mundo de seu tempo. Como dizem alguns historiadores, o cristianismo destruiu Roma; o que se deu em cumprimento das visões de Daniel, o profeta. Ora, meus caros, a política de Roma era pela tolerância - aceitava-se toda e qualquer religião, desde que completamente sujeitas ao Imperador. Por este motivo nossos irmãos foram perseguidos e mortos.

E, justamente porque a Graça me é tema tão valioso e caro, que não desisto nunca de lutar por minha liberdade cristã. Às vezes, alguns dizem que estou sendo apenas rancoroso, devido o passado. Talvez possa ser isso; todavia, quem há de condenar um escravo feito livre que se recusa a voltar para Senzala? Estejam certos amigos, vale a pena se agarrar a Carta de Alforria que nos foi dada pela Cruz do Cristo Redentor.

Não é estranho pensar que estamos assim, como Igreja, estabelecendo agendas que diferem tanto do coração da mensagem do Cristo? Fico imaginando Jesus presente em nossos cultos de doutrinamento, de conchavos políticos, de ressuscitação do condenado judaísmo, ou da cabala... Fico imaginando Jesus presente em nossos momentos de louvor e adoração, com muito ritmo, muitas luzes e sons, mas desprovido de conteúdo, de sentido semântico, arrependimento pessoal e conversão...

Há um problema interessante aqui. Quando descobrimos a mensagem subversiva do Evangelho, corremos um grande risco de sermos relegados ao gueto fétido dos hereges. A religião baseada em tradições humanas nunca está disposta a abrir mão de seu legado, pois, sabe, acertadamente, que tal rendição seria o seu fim. É mais fácil mandar para o Gólgota os proclamadores da liberdade...

Mas, minha convicção é que este perigo é apenas relativo e momentâneo; mesmo que nos custasse a vida. Cristo jamais colocaria Sua Mensagem refém dos caprichos e interesses da volatilidade dos homens. O Evangelho é Eterno, e jamais será derrotado. Portanto, se você tem lutado nesta mesma guerra, termino com uma palavra de conforto deixada por Jesus Cristo, nosso mentor:

“O Reino dos céus é como um grão de mostarda que um homem plantou em seu campo. Embora seja a menor dentre todas as sementes, quando cresce torna-se a maior das hortaliças e se transforma numa árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer os seus ninhos em seus ramos” (S. Mateus 13. 31,32).

Você e eu, sendo a Vontade do Senhor, poderemos até perder coisas valiosas durante a guerra, (muitos de nossos irmãos primitivos perderam a vida) mas Cristo, este sempre será vitorioso! O Evangelho sempre triunfará!